Em revisão científica, pesquisador avalia perfil de risco dos sachês de nicotina e defende regulação pautada em evidências

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Estudo publicado no periódico Internal and Emergency Medicine compila literatura sobre composição dos produtos, seus possíveis efeitos à saúde, a quantidade de substâncias absorvidas pelo organismo, como a nicotina é processada pelo corpo e como esses produtos são usados pela população.

O cardiologista e pesquisador grego Konstantinos F., afiliado como pesquisador associado externo à Universidade do Oeste da Ática e à Universidade de Patras, é autor de mais de 110 estudos revisados por pares na área de redução de danos e produtos alternativos para consumo de nicotina com risco reduzido. Em sua publicação mais recente, lançada no periódico científico Internal and Emergency Medicine, o autor apresenta uma ampla revisão narrativa dedicada aos sachês de nicotina (nicotine pouches).

O estudo reúne evidências sobre a composição dos produtos, seus possíveis efeitos à saúde, a quantidade de substâncias absorvidas pelo organismo, como a nicotina é processada pelo corpo e como esses produtos são usados pela população.  Segundo o autor, a iniciativa busca reunir o conjunto das evidências disponíveis em um único documento de referência, oferecendo um panorama técnico consolidado para pesquisadores, profissionais de saúde e formuladores de políticas públicas.

O que a pesquisa concluiu?

A revisão conclui que os sachês de nicotina ocupam um patamar significativamente baixo no espectro de risco relativo dos produtos contendo nicotina, apresentando um perfil toxicológico próximo ao das terapias farmacológicas de reposição de nicotina (TRN), como adesivos e gomas, alternativas já recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e amplamente prescritas por médicos para tratar o tabagismo. 

Por não utilizarem folhas de tabaco e recorrerem à nicotina de grau farmacêutico, os sachês de nicotina eliminam a combustão e a fumaça, além de reduzirem a níveis insignificantes ou indetectáveis os compostos nocivos tipicamente encontrados no tabaco tradicional, como as nitrosaminas específicas (TSNAs) e metais pesados.

Estudos de biomarcadores em humanos indicam que a transição completa do cigarro convencional para os sachês de nicotina resulta em reduções na exposição a substâncias tóxicas comparáveis às observadas na cessação total do consumo. Para a avaliação de potenciais impactos no longo prazo, a análise aplica o princípio de bridging (extrapolação analógica): na ausência de dados epidemiológicos de várias décadas específicos para os sachês, o amplo corpo de evidências sobre o snus sueco, produto de uso oral que não demonstrou associação causal com câncer de pulmão ou elevação significativa de doenças cardiovasculares, serve como parâmetro comparativo seguro.

Proibir por falta de dados de longo prazo faz sentido?

O estudo também questiona a postura de proibir ou atrasar a regulamentação dos sachês de nicotina alegando a falta de estudos de longo prazo. Para Konstantinos, as pesquisas atuais, já revisadas e validadas pela comunidade científica, trazem dados toxicológicos e farmacológicos suficientes para determinar o grau de risco desses produtos com uma margem de segurança clara.

O autor critica o uso rígido do princípio da precaução, que costuma travar o acesso a novas alternativas em busca de certezas absolutas. Ele lembra que a própria medicina não exige 20 ou 30 anos de acompanhamento populacional para aprovar novos medicamentos ou tratamentos; decisões clínicas e de saúde pública são tomadas com base nas melhores evidências disponíveis no presente.

“Na medicina, fazemos recomendações com base nas melhores evidências disponíveis no momento. Nenhum tratamento ou diretriz de saúde exige 20 ou 30 anos de acompanhamento populacional prévio para que suas evidências de menor risco sejam consideradas”, pontua o autor.

O papel dos sabores, o consumo por jovens e a eficácia da fiscalização

A proteção dos jovens é tratada no estudo como uma prioridade indispensável para a formulação de diretrizes de saúde pública. O autor defende o estabelecimento de limites de idade rigorosos e mecanismos efetivos de controle nos pontos de venda.

Ao analisar os fatores que motivam a experimentação por adolescentes, a revisão cita dados da National Youth Tobacco Survey, realizada pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos. No levantamento, a presença de aromas e sabores ficou em sétimo lugar entre as razões mencionadas pelos jovens (citada por 11% dos entrevistados). Isso desmonta um dos principais argumentos de quem é contra a presença de sabores em produtos com nicotina, que estes seriam apelativos exclusivamente ao público juvenil e o principal motivo de seu consumo por esse grupo.

O estudo traz ainda a análise de casos internacionais em relação à eficácia de diferentes abordagens regulatórias. Na Dinamarca, por exemplo, após a implementação de restrições amplas de sabores em e-líquidos em 2022, dados populacionais registraram um aumento de 70% no consumo entre jovens de 15 a 29 anos nos dois anos subsequentes, impulsionado pelo abastecimento por vias informais de comércio.

Com base nesses dados, a revisão sustenta que a contenção do acesso por menores de idade depende centralmente da aplicação rígida da legislação sanitária e do controle de distribuição, e não de restrições gerais que possam desestimular a migração de adultos fumantes para alternativas de menor risco.

É possível confiar nos dados?

A revisão ressalta a relevância da produção acadêmica independente sobre a estratégia de Redução de Danos do Tabagismo (RDT). Diferente de outros setores da saúde em que grande parte dos ensaios clínicos é custeada por desenvolvedores comerciais, uma parcela substancial da literatura sobre produtos orais de nicotina e alternativas sem combustão é conduzida por universidades e instituições públicas de pesquisa, como o Karolinska Institutet, na Suécia.

A conclusão do estudo reforça que os sachês de nicotina constituem uma alternativa viável e de exposição reduzida para adultos que não conseguem ou não desejam cessar o uso de nicotina pelos métodos convencionais. Para a saúde pública, o aproveitamento desse potencial requer marcos regulatórios proporcionais ao risco, pautados no controle de qualidade, na transparência de informações ao consumidor e na fiscalização eficiente dos canais de venda.

Referências Bibliográficas

CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). National Youth Tobacco Survey (NYTS). Atlanta: CDC, 2024.

FARSALINOS, Konstantinos. Nicotine pouches: an aid in smoking cessation, or a new public health hazard? Internal and Emergency Medicine, v. 21, n. 3, 2026. DOI: https://doi.org/10.1007/s11739-026-04278-1.

SNUSFORUMET. Konstantinos Farsalinos: The scientist who won’t let politics bury the evidence. Snusforumet, 23 abr. 2026. Disponível em: https://snusforumet.se/en/konstantinos-farsalinos-nicotine-pouches-harm-reduction/#:~:text=The%20review’s%20central%20finding%20is,concludes%20in%20the%20paper’s%20abstract.  Acesso em: 28 jul. 2026.

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