Novas pesquisas internacionais indicam que a transição para os vaporizadores eletrônicos ou o uso combinado para reduzir o cigarro tradicional trazem benefícios significativos à saúde quando comparados ao tabagismo exclusivo.
Dois novos estudos científicos publicados recentemente reforçam o corpo de evidências sobre as alternativas de menor risco para fumantes. Um amplo levantamento realizado na Coreia do Sul constatou que pacientes diagnosticados com câncer que passaram a utilizar vaporizadores eletrônicos apresentaram uma taxa de mortalidade 16% menor do que aqueles que continuaram fumando cigarros tradicionais. Paralelamente, uma pesquisa conduzida nos Estados Unidos apontou que fumantes que associaram o vape ao cotidiano conseguiram reduzir drasticamente a exposição a compostos altamente cancerígenos.
Os resultados combinados sugerem que a substituição completa ou parcial do tabaco combustível por alternativas sem combustão está associada a uma atenuação importante nos danos provocados pelo tabagismo.
Menor taxa de mortalidade após o diagnóstico de câncer
O estudo sul-coreano analisou dados do Serviço Nacional de Seguro de Saúde do país, acompanhando 46.834 pessoas que fumavam ativamente quando receberam o diagnóstico de câncer entre os anos de 2015 e 2022.
Após a detecção da doença, o comportamento dos pacientes variou: 17.418 continuaram fumando cigarros convencionais, 25.909 abandonaram completamente a nicotina e 3.507 migraram para os vaporizadores eletrônicos.
Durante um período de acompanhamento médio de 4,2 anos, os pesquisadores observaram que as mortes por qualquer causa ocorreram a uma taxa 16% menor entre os usuários de vape em comparação com os que mantiveram o tabagismo tradicional. Para o grupo que interrompeu totalmente o consumo, a taxa de mortalidade foi 8% menor do que a dos fumantes contínuos.
Além disso, os adeptos do vape registraram uma taxa 28% menor de complicações cardíacas e circulatórias em relação aos fumantes tradicionais. No grupo que abandonou totalmente a substância, a redução desse risco específico foi de 36%. Embora o estudo tenha estimado uma taxa ligeiramente maior de complicações pulmonares entre os usuários de vape do que entre os que cessaram o hábito por completo, as margens estatísticas apontam para a possibilidade de pouca ou nenhuma diferença real nesse indicador devido à incerteza dos dados.
Por se tratar de um estudo observacional, os cientistas ressaltam que os dados indicam uma correlação sólida, mas não estabelecem causalidade definitiva, visto que fatores como o histórico de tabagismo, o tipo de tumor e o estilo de vida também influenciam o prognóstico. A análise focou em pacientes já diagnosticados e não avaliou o impacto do vape no surgimento inicial do câncer.
Uso combinado e a redução de carcinógenos
A segunda linha de evidências vem de uma pesquisa norte-americana baseada no amplo estudo PATH (Population Assessment of Tobacco and Health), que avaliou 8.688 adultos. Destes, 798 indivíduos passaram a combinar o uso de cigarros convencionais e eletrônicos (conhecido como uso dual) ao longo das entrevistas.
Ao analisar amostras biológicas e comparar os indivíduos com quem continuou fumando exclusivamente, os cientistas identificaram reduções expressivas em biomarcadores urinários de nitrosaminas específicas do tabaco, que são substâncias cancerígenas geradas de forma primária na queima e combustão da folha do tabaco. Os usuários Adeptos do uso combinado apresentaram uma queda de 13,4% nos níveis de NNAL e de 9,5% nos níveis de NNNT.
Nota:
NNAL: É um metabólito (subproduto) do NNK, um dos agentes carcinógenos mais potentes presentes na fumaça do cigarro, diretamente ligado ao desenvolvimento de cancro do pulmão. Monitorizar os níveis de NNAL na urina permite aos cientistas saber com precisão o quão exposto o corpo está a esse risco.
NNNT: É um biomarcador derivado do NNN, outro composto altamente cancerígeno que atua de forma muito agressiva nas vias respiratórias e no sistema esofágico.
Como são usados nas pesquisas? Quando os investigadores analisam fumadores que migraram totalmente para o vape ou que passaram a combinar os dois produtos para reduzir o consumo (uso misto), eles medem o NNAL e o NNNT. Se os níveis destas duas substâncias caírem significativamente, isso serve como uma prova biológica de que a pessoa reduziu a sua exposição direta aos químicos que causam cancro.
A diminuição de substâncias tóxicas ocorreu acompanhada por uma redução de 11% no consumo diário de cigarros comuns (caindo de uma média de 14,3 para 12,7 unidades ao dia). Por outro lado, a exposição total à nicotina não caiu, registrando um aumento nos subprodutos de sua quebra metabólica, o que indica que os usuários conseguiram manter a saciedade da substância substituindo os compostos nocivos da fumaça pelo vapor do dispositivo eletrônico.
A pesquisa revelou, contudo, uma diferenciação importante conforme o perfil do fumante: os benefícios e a redução dos compostos cancerígenos foram claros e estatisticamente significativos entre os fumantes mais moderados (até 13 cigarros por dia). Entre os fumantes pesados (média de 22 cigarros por dia), embora tenha havido uma redução no consumo de tabaco combustível para 18 unidades diárias, a queda nos níveis de substâncias nocivas após o ajuste estatístico foi menor, sugerindo que a proporção de cigarros efetivamente substituídos pelo vape dita a magnitude da redução de riscos.
O impacto prático das descobertas
O estudo sul-coreano joga luz sobre os desfechos clínicos e a sobrevida de pacientes graves, enquanto a análise norte-americana desvenda o mecanismo biológico por trás dessa proteção: a redução drástica na exposição a agentes químicos cancerígenos que resultam da queima do tabaco.
Ambos os achados convergem para a tese de que afastar-se da combustão do cigarro o máximo possível é o caminho mais seguro para mitigar danos. Diante do tabagismo contínuo e exclusivo, os dispositivos eletrônicos operam como uma ferramenta de transição capaz de reduzir a velocidade e a gravidade dos desfechos de saúde relacionados ao fumo tradicional.
Referências
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KANG, D. et al.The Risks of Mortality, Cardiovascular Events, and Pulmonary Complications in Cancer Patients Who Smoke Cigarettes and Switch to E-Cigarettes: South Korea, 2015‒2022. Am J Public Health, [s. l.], 2026. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42391591/. Acesso em: 17 jul. 2026.
ANDERSON, Ali. Studies link vaping to lower death risk in cancer patients and reduced carcinogen exposure. Clearing the Air, [s. l.], 16 jul. 2026. Disponível em: https://clearingtheair.eu/en/post/studies-link-vaping-to-lower-death-risk-in-cancer-patients-and-reduced-carcinogen-exposure/. Acesso em: 17 jul. 2026


