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A EVALI nunca teve relação com os vaporizadores de nicotina consumidos no Brasil

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Tempo de leitura: 7 minutos

Em 2019 uma epidemia de doença pulmonar nomeada EVALI atingiu os EUA em 2019, matando 68 pessoas e hospitalizando outras 2.807, finalizando em Fevereiro de 2020.

Mais de 2 anos após o final desta epidemia, ainda hoje veículos de mídias e profissionais de saúde fazem ligação da doença com os cigarros eletrônicos consumidos no Brasil, que contém exclusivamente nicotina, praticamente o único tipo consumido no Brasil, causando terrorismo e confusão no público leigo.

Entenda exatamente o que aconteceu.

O mercado americano de Cannabis

É muito importante salientar que no Brasil, quando falamos em “cigarros eletrônicos”, automaticamente entendemos se tratar de produtos que contém exclusivamente nicotina, já que um mercado de óleo de maconha é praticamente inexistente. Já nos EUA, os cigarros eletrônicos são conhecidos como “vaping devices” ou “dispositivos de vaporização” e dizer que você é um usuário deles não basta, é preciso especificar se de nicotina ou de óleo de THC.

Isso porque, diferente do Brasil, os EUA possuem um grande mercado legalizado de maconha e por lá seu consumo é normatizado na maioria do país. Esse cenário é o principal motivo que causa tanta confusão acerca da EVALI.

A legislação acerca da Cannabis é responsabilidade individual de cada Estado e não do Governo Federal. Dos 51 Estados Americanos, apenas 11 proíbem qualquer tipo de uso, enquanto 21 liberaram o uso somente medicinal e outros 19 também liberaram o uso recreativo.

Loja americana especializada na venda de maconha, legalizada em muitos Estados

Portanto dependendo de onde você vive nos EUA, é possível encontrar lojas especializadas na venda destes produtos nas suas mais variadas formas, desde biscoitos, bolos, pirulitos, até a erva pronta para ser enrolada e fumada, sem qualquer justificativa medicinal.

Como em qualquer setor legalizado, inovações tecnológicas são feitas. Com a invenção do cigarro eletrônico para consumo de nicotina em 2003, os produtores de maconha e derivados começaram a fazer alterações no cartucho para que ele pudesse lidar com a viscosidade de vários óleos de ervas botânicas. 

Essas alterações levaram à explosão da indústria de vaporização de ervas. A primeira empresa a alterar e vender com sucesso esse tipo de produto foi a O.Pen em 2013. O cartucho era de plástico e abrigava um pavio de plástico fibroso e uma bobina de metal.

Como o consumo era feito por esse cartucho especial que podia ser conectado nas mesmas baterias usadas nos cigarros eletrônicos de nicotina, já amplamente oferecidos no mercado americano, a aceitação desse novo método de utilização de Cannabis foi um sucesso.

Cartuchos tanto de nicotina quanto de óleo de THC podem ser usados no mesmo aparelho

Apesar de utilizarem a mesma bateria para funcionar, os cartuchos de óleo de THC são produtos completamente diferentes dos cartuchos que contém líquidos com nicotina, com mercados separados e principalmente objetivos distintos.

6 anos após a invenção e popularização do consumo de óleo de THC, nenhum consumidor havia tido problemas de saúde por conta dos produtos, mas isso mudou em 2019.

Sensacionalismo, ineficiência e o nome EVALI

Quando um paciente dá entrada em um hospital é feito um questionário sobre seus hábitos de consumo para identificar a potencial causa do problema relatado.

Devemos lembrar que o consumo de maconha é um tabu para muitas pessoas e em alguns Estados americanos ainda é ilegal. Muitos dos pacientes eram jovens e adolescentes que ao serem questionados alegavam ter usado produtos contendo apenas nicotina, muito menos grave do que admitir o consumo de maconha.

Apesar de terem existido fortes indícios desde o primeiro momento que se tratavam de problemas relacionados exclusivamente ao consumo de óleos com THC, a mídia passou a noticiar informações equivocadas, por vezes sensacionalistas, generalizando o problema ao uso dos “dispositivos de vaporização”, automaticamente incluindo os produtos de cigarros eletrônicos com nicotina, sem qualquer distinção ao tipo de líquido consumido.

O próprio CDC foi acusado de ser ineficiente no caso e mesmo com dúvidas em relação ao tipo de substância utilizada nos vaporizadores, em Outubro de 2019 nomeou a doença de EVALI – E-Cigarette or Vaping Product Use-associated Lung Injury ou em tradução livre “Dano aos Pulmões Associados ao Uso de Cigarros Eletrônicos ou Produtos de Vaping” incluindo um aviso em seu site oficial alertando para interromper o uso de qualquer tipo de cigarro eletrônico.

Isso causou um pânico mundial cujas consequências foram desastrosas. Vários consumidores de cigarros eletrônicos de nicotina voltaram a fumar por medo de problemas de saúde imediatos, enquanto alguns Estados americanos chegaram a proibir a venda dos aparelhos. O próprio presidente Trump divulgou a intenção de banir os líquidos de cigarros eletrônicos com sabor, alegando que estes são atraentes para os jovens e que estavam contribuindo para o problema se alastrar, argumento bastante utilizado por grupos proibicionistas dos EUA. Apesar da intenção, o presidente Trump voltou atrás e decidiu não seguir com a decisão.

Aqui no Brasil, inúmeros veículos de mídia noticiaram os problemas sem fazer distinção entre os produtos, causando uma verdadeira histeria, colocando os cigarros eletrônicos de nicotina como vilões, os únicos que são realmente consumidos no país.

Vários veículos de mídia noticiaram incorretamente a relação dos cigarros eletrônicos com as doenças nos EUA

Ainda hoje vemos publicações frequentes atrelando a EVALI aos cigarros eletrônicos de nicotina, tanto na mídia quando por profissionais de saúde, que não conhecem os fatos e compartilham informações falsas.

Com o passar do tempo, as investigações do CDC apuraram que 82% dos pacientes admitiram ter usado produtos contendo THC. Para piorar, descobriu-se que o consumo havia sido de líquidos com THC adquiridos de forma ilegal, através de contas do Instagram ou sites de procedência duvidosa.

Isso justifica o motivo de alguns pacientes terem declarado o uso exclusivo de nicotina, caso contrário estariam admitindo um crime.

“É capaz que existam apenas dois tipos de pessoa que contraem esta doença: aqueles que usaram cartuchos de THC e aqueles que não admitem.

DR. SCOTT ABEREGG, PNEUMOLOGISTA DA UNIVERSIDADE DE SAÚDE DE UTAH

EVALI – Uma doença fruto do crime

Com mais e mais casos reportados, os médicos começaram a encontrar uma substância em comum, o Acetato de Vitamina E, uma substância extremamente tóxica quando inalada que não deve ser ingrediente de qualquer produto do mercado, seja com nicotina ou THC.

O organismo humano reage de forma bem diferente dependendo de como você consome qualquer substância. Vitamina E é encontrada em diversos produtos e pode ser consumida de forma segura através de loções, cremes ou pílulas, porém quando inalada é extremamente prejudicial aos pulmões, acumulando óleo no sistema respiratório e causando uma pneumonia lipoide, exatamente os sintomas que a EVALI apresentava.

O Acetato de Vitamina E estava presente em todas as amostras de líquidos de THC consumidos pelas pessoas afetadas pela doença. Também foi descoberto que esses cartuchos haviam sido comprados de lojas e marcas não oficiais, exclusivamente através do mercado ilegal, composto por contas de Instagram e sites sem qualquer credibilidade.

A polícia americana passou a realizar uma operação em busca dos potenciais culpados e uma série de batidas e apreensões desmantelaram um esquema criminoso de falsificação de cartuchos de THC, com apreensão de milhares de produtos, armas, dinheiro e a prisão de dezenas de pessoas nos Estados de Nova Iorque e Wisconsin.

“Vaping Bad: Eram dois irmãos de Wisconsin os Walter Whites do óleo de THC?”

Foi descoberto que estes grupos criminosos estavam utilizando o Acetato de Vitamina E para extrair e diluir THC da maconha, tornando o produto visualmente mais atrativo e passando uma sensação de qualidade.

Após as prisões e com mais informações coletadas, o CDC divulgou nota oficial atrelando a doença EVALI exclusivamente à presença de Vitamina E nos cartuchos de THC falsificados, livrando de qualquer responsabilidade os cigarros eletrônicos que utilizam líquidos exclusivamente com nicotina.

No página oficial do CDC que trata sobre os cigarros eletrônicos o órgão admite que “cigarros eletrônicos tem o potencial de auxiliar fumantes adultos como um substituto dos cigarros convencionais e outros produtos de tabaco”.

Além dos óbvios e terríveis danos causados às vitimas que morreram ou foram hospitalizadas, as consequências destas operações criminosas são muito mais abrangentes.

No mundo todo pessoas deixaram de utilizar os cigarros eletrônicos com medo de problemas de saúde e voltaram a fumar os cigarros convencionais, muito mais prejudiciais em comparação.

A repercussão da decisão divulgada pelo presidente Trump em banir os sabores dos líquidos para cigarros eletrônicos aumentou a sensação de pânico e contribuiu para agravar a situação, fazendo o mercado de cigarros eletrônicos nos Estados Unidos perder 60% de suas vendas, vários comércios fecharam as portas e muitas pessoas foram afetadas direta ou indiretamente. O presidente Trump voltou atrás na decisão, mas o estrago foi feito.

Como podemos ver, não se trata de uma doença causada pelo uso correto dos produtos e sim por conta de uma contaminação criminosa. Para piorar, a má fama recaiu nos cigarros eletrônicos que não possuem ligação com o ocorrido.

Não há relação entre a EVALI e cigarros eletrônicos de nicotina

Até hoje não há nenhum caso documentado de EVALI em pacientes que utilizaram exclusivamente cartuchos contendo nicotina.

Muito se criticou o CDC pela condução do caso, primeiro pela ineficiência em identificar a real causa do problema que nunca esteve atrelada aos cigarros eletrônicos para consumo de nicotina e sim aos produtos para consumo exclusivo de THC concentrado. Segundo pela nomenclatura “EVALI” que confunde a opinião pública e não faz clara distinção dos produtos, uma vez que tecnicamente ambos “vaporizam” líquidos e são “vaping devices” ou “dispositivos para vaporização”.

Um artigo de Clive Bates discorre em detalhes sobre todos os problema acerca da EVALI e sugerimos a leitura.

“A atribuição do vaping de nicotina como causa do EVALI deve parar. O termo EVALI é enganoso e deve ser retirado e substituído. Os comunicadores de risco devem assumir sua responsabilidade de corrigir as falsas percepções residuais de risco. Deve haver uma investigação objetiva sobre como o EVALI foi tratado. Deve-se considerar seriamente as vantagens de legalizar e regular os produtos de cannabis.”

Clive Bates, ex-funcionário público sênior e diretor de ação sobre fumo e saúde do Reino Unido

A própria agressividade da doença é prova de que sua origem veio da contaminação pontual dos produtos, pois desde a prisão dos envolvidos e a retirada destes produtos do mercado, não há novos casos de EVALI. Se o problema estivesse atrelado ao uso de cigarros eletrônicos de nicotina, dado o consumo por milhões de pessoas pelo mundo, certamente haveríamos de ter mais casos surgindo ainda hoje.

A incompetência de quem divulga este tipo de informação falsa sobre a EVALI é praticamente criminosa, pois a divulgação dessas notícias contribui para aumentar o terrorismo feito contra os cigarros eletrônicos, produtos que podem auxiliar milhões de brasileiros fumantes a largar o tabagismo.

Um excelente documentário que pode ser consultado sobre o assunto é o “Vaping Demystified” produzido por um instituto de pesquisa sobre o Câncer na Inglaterra.

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