Brasil está perdendo a batalha contra o tabagismo

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Há pouco mais de uma década, a Nova Zelândia fumava mais do que o Brasil. Em 2011, a prevalência de fumantes diários era de 16,4% entre os neozelandeses, enquanto no Brasil era de 15%. Hoje, o cenário se inverteu — e a diferença não é pequena.

Em maio de 2025, o próprio Ministério da Saúde brasileiro informou que o tabagismo voltou a crescer pela primeira vez desde 2007, alcançando 11,6%. No mesmo período, a Nova Zelândia reduziu dramaticamente sua taxa para 6,8%. A distância entre os dois países praticamente dobrou em pouco mais de dez anos.

O relatório Tale of Two Nations: Brazil v New Zealand (A história de duas nações: Brasil versus Nova Zelândia em tradução livre) foi produzido pela Smoke Free Sweden, organização internacional que analisa políticas públicas de controle do tabagismo com base na experiência sueca, hoje reconhecida por registrar uma das menores taxas de fumantes da Europa e estar muito próxima do status oficial de país livre de fumo. A entidade tem se destacado por comparar modelos regulatórios em diferentes países e avaliar seus resultados concretos em saúde pública.

No documento, a organização demonstra que a diferença crescente entre Brasil e Nova Zelândia não é fruto do acaso. Ela é consequência direta de escolhas políticas distintas e de como cada país decidiu lidar com produtos de nicotina de menor risco dentro de sua estratégia de controle do tabaco.

O Brasil manteve uma estratégia tradicional de controle do tabaco: aumento de impostos, advertências sanitárias e proibição de fumo em ambientes fechados. São medidas importantes, mas adotadas de forma isolada e acompanhadas por uma proibição considerada ineficaz de produtos de menor risco, como cigarros eletrônicos e dispositivos de tabaco aquecido.

A proibição está em vigor desde 2009. Ainda assim, estima-se que cerca de milhões de brasileiros utilizem vape atualmente. Esses consumidores não desapareceram por causa da proibição, apenas foram empurrados para o mercado ilícito, onde não há padrões de qualidade, controle sanitário ou fiscalização.

Ao mesmo tempo, existe um vazio regulatório em relação aos sachês de nicotina. Trata-se de outra alternativa sem combustão, com evidência internacional de risco significativamente inferior ao cigarro tradicional. No Brasil, a ausência de regulamentação clara apenas amplia a exposição dos usuários ao mercado informal.

A Nova Zelândia seguiu caminho oposto. O país incorporou a redução de riscos como parte de sua estratégia oficial de controle do tabagismo. O governo reconhece publicamente o papel dos vapes como ferramenta de cessação. Os produtos são legais, acessíveis e regulados sob regras proporcionais ao risco, com mensagens claras de saúde pública incentivando a substituição do cigarro por alternativas menos nocivas.

Essa abordagem pragmática acelerou a queda no número de fumantes e colocou a Nova Zelândia no caminho para se tornar um dos primeiros países fora da Europa a alcançar o status de “smoke-free”.

Hoje, quem lidera esse movimento é a Suécia, que já registra uma taxa de fumantes próxima de 5%, patamar considerado internacionalmente como limite para o status livre de fumo. A experiência sueca, baseada na substituição do cigarro por alternativas sem combustão, tornou-se referência global em redução de danos. É justamente essa trajetória que inspira análises como a da Smoke Free Sweden e reforça o argumento central do relatório: quando políticas públicas diferenciam risco e regulam alternativas de menor dano, a queda no tabagismo acontece de forma mais rápida e consistente.

A comparação é objetiva. Ambos os países partiram de patamares semelhantes há pouco mais de uma década. Um adotou diferenciação de risco e regulação. O outro manteve proibição e negou alternativas reguladas aos adultos que fumam.

Se o objetivo é reduzir doenças e mortes associadas ao tabagismo, os resultados importam. A experiência internacional mostra que reconhecer diferenças de risco e oferecer caminhos regulados de substituição pode acelerar a transição para longe da combustão.

Ignorar essa evidência não impede o consumo. Apenas impede o controle.

Link para o relatório completo:
https://smokefreesweden.org/wp-content/themes/smokefreesweden/assets/pdf/tale/SFS%202N%20Brazil%20v%20NZL%2011%20Feb.pdf

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