Aqui no Brasil, o debate sobre cigarros eletrônicos ainda gira em torno de narrativas ideológicas e frequentemente alarmistas. Não é incomum ver esses produtos descritos como ineficazes para parar de fumar, mais prejudiciais do que o cigarro ou apenas como uma estratégia da indústria para atrair jovens consumidores.
Enquanto isso, o Brasil permanece atrasado em relação a mais de uma centena de países que já superaram essa fase do debate. Nessas jurisdições, não se discute mais se produtos de nicotina de menor risco devem ou não existir, mas sim como regulá-los de forma eficaz. São políticas públicas claras, estruturadas e baseadas em evidência, que permitem o acesso por fumantes adultos, ao mesmo tempo em que estabelecem restrições rigorosas para proteger jovens, com exigências de qualidade sanitária, registros obrigatórios, controle de mercado e fiscalização ativa. É nessa direção que avançam países como a Suécia, que está próxima de se tornar o primeiro país livre do fumo, com uma taxa de tabagismo em torno de 5%¹. Esse resultado não decorre apenas de medidas tradicionais de controle, mas também da integração pragmática de alternativas de menor risco no conjunto das políticas de saúde pública².
Nesse contexto, uma nova revisão das evidências científicas mais robustas disponíveis hoje reforça um ponto que há anos vem sendo debatido, mas ainda é frequentemente contestado no Brasil: cigarros eletrônicos com nicotina são mais eficazes para parar de fumar do que terapias tradicionais de reposição de nicotina, como adesivos, gomas e pastilhas³.
O estudo, publicado na revista da Society for the Study of Addiction, analisou um amplo conjunto de revisões sistemáticas produzidas entre 2014 e 2023. Em vez de se basear em um único ensaio clínico, os autores sintetizaram resultados de múltiplas análises de alta qualidade, oferecendo uma visão consolidada e atualizada do estado da evidência científica³.
O padrão é consistente. Quando a análise se restringe aos estudos mais rigorosos, os cigarros eletrônicos com nicotina apresentam taxas de cessação superiores às terapias convencionais. Esse resultado também se mantém em comparação com cigarros eletrônicos sem nicotina e com intervenções comportamentais isoladas³.
Esse tipo de evidência responde diretamente a um dos argumentos mais recorrentes no debate público: o de que “ainda não há evidência suficiente”. O que essa revisão mostra é o oposto — dentro do conjunto de estudos de maior qualidade, a direção do resultado é clara e repetida³.
Isso não significa que todas as questões estejam resolvidas. Os próprios autores apontam limitações, como a escassez de comparações diretas com medicamentos como vareniclina e bupropiona, além da falta de dados mais robustos sobre produtos mais recentes, como os sachês de nicotina³. Também há uma concentração de estudos em países de alta renda, o que limita a generalização global. Ainda assim, essas lacunas não alteram o achado central, apenas indicam onde a pesquisa pode avançar.
A implicação prática é direta. Revisões desse tipo não representam um estudo isolado, mas uma síntese do melhor conhecimento disponível. Quando esse nível de evidência aponta consistentemente para maior eficácia dos cigarros eletrônicos na cessação do tabagismo, o esperado seria uma adaptação proporcional das políticas de saúde pública.
No Brasil, ocorre o oposto. A proibição não eliminou o consumo, mas transferiu o mercado para a informalidade, impedindo qualquer controle sanitário e afastando o consumidor de informações confiáveis⁴. Ao mesmo tempo, impede o acesso a uma ferramenta que, segundo a própria literatura científica, é a mais eficaz para o abandono do cigarro³.
A manutenção desse modelo cria uma distorção: políticas que deveriam proteger a saúde pública acabam ignorando evidências consolidadas sobre redução de risco e cessação. Em vez de orientar o consumidor para alternativas menos nocivas, o cenário atual apenas restringe escolhas.
O debate sobre nicotina já não é sobre falta de dados, mas sobre como interpretá-los e aplicá-los de forma coerente. O cigarro segue sendo, de forma inequívoca, o produto de maior risco⁵. A questão central é que políticas públicas de sucesso reconhecem, de forma pragmática, a existência de alternativas significativamente menos prejudiciais e potencialmente mais eficazes para quem deseja parar de fumar, aceitando que isso não implique necessariamente a interrupção do consumo de nicotina.
Isso porque a nicotina, embora cause dependência, não é a principal responsável pelas doenças associadas ao tabagismo. Esses danos decorrem majoritariamente da combustão e da inalação de substâncias tóxicas presentes na fumaça do cigarro, um ponto já amplamente estabelecido pela literatura científica.
Ignorar essa diferença não simplifica o problema. Apenas torna as respostas menos eficazes e contribui para prolongar o impacto do tabagismo na saúde e na vida da população brasileira.
Referências
- Ramström L, Borland R, Wikmans T. Patterns of Smoking and Snus Use in Sweden: Implications for Public Health. Int J Environ Res Public Health. 2016.
https://www.mdpi.com/1660-4601/13/11/1110 - Foulds J, Ramström L, Burke M, Fagerström K. Effect of smokeless tobacco (snus) on smoking and public health in Sweden. Tobacco Control. 2003.
https://tobaccocontrol.bmj.com/content/12/4/349 - Lindson N, Butler AR, McRobbie H, et al. Electronic cigarettes for smoking cessation. Cochrane Database of Systematic Reviews.
https://www.cochranelibrary.com/cdsr/doi/10.1002/14651858.CD010216.pub7/full - Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Relatórios e dados sobre dispositivos eletrônicos para fumar e mercado irregular no Brasil.
https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/tabaco/cigarro-eletronico - U.S. Department of Health and Human Services. The Health Consequences of Smoking—50 Years of Progress. A Report of the Surgeon General. 2014.
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK179276/


