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Resposta ao Dr. Dráuzio Varella – coluna #105

O Dr. Dráuzio Varella é provavelmente o médico mais conhecido do Brasil e já falou sobre os cigarros eletrônicos algumas vezes como no Programa do Jô, oportunidade em que ele defendeu, porém mais recentemente passou a atacar os dispositivos e publicar vídeos falando do assunto, porém infelizmente com muita desinformação e pontos mal colocados.

Participando dos comentários destes vídeos, notei que dei respostas longas que poderiam muito bem ser traduzidos para um artigo que teria maior visibilidade e abrangência, portanto cá estamos.

Gostaria de saber o que você pensa, então aproveite e comente na publicação oficial deste artigo em nossa página do Facebook e conte pra gente o que você achou do vídeo e também deste artigo.

Como se trata de uma resposta direta a um vídeo, é preciso que você assista para entender os pontos que vou levantar, caso ainda não tenha visto, clique aqui para ver.

Acho interessante rebater os pontos que o Dr. Dráuzio Varella levantou um a um:

O cigarro eletrônico é um dispositivo em que você aspira e a nicotina vem pra dentro do pulmão

Uma super simplificação que pode induzir ao erro. Apesar do cigarro eletrônico permitir o uso de líquidos com nicotina, é também possível consumir líquidos sem nicotina, o que acontece bastante. Quando se fala logo em seguida que a nicotina é a pior droga do mundo, se pinta um quadro erroneamente alarmante acerca dos cigarros eletrônicos.

A nicotina é a droga que mais vicia que a medicina conhece, mais que cocaína, maconha…

O consumo da nicotina e suas consequências está sendo debatido no mundo todo pois hoje é a primeira vez na história da humanidade que temos o uso da substância em larga escala sem estar atrelada ao cigarro, junto com suas mais de 7500 substâncias tóxicas.

Temos algumas pesquisas que indicam que a nicotina pode ser tão prejudicial quanto a cafeína e que ela não é nem de longe tão viciante quanto quando ela está no cigarro, incluindo pesquisas que com bastante sucesso estão encontrando na nicotina uma alternativa no tratamento de Alzheimer’s.

O diretor Aaron Biebert do excelente documentário “A Billion Lives” que trata dos cigarros e do vaping no mundo, lançado em 2016 e ganhador de vários prêmios, anunciou um novo projeto chamado “You Don’t Know Nicotine” com a nicotina como alvo do novo documentário. Pediu U$ 50 mil dólares através do Kickstarter, sistema que permite arrecadação de fundos para todo tipo de projeto, conseguiu mais do que o dobro e o documentário já está em produção. A ideia é mostrar ao mundo o que se descobriu sobre a nicotina após o vaping a ter colocado em evidência e iniciado um interesse em pesquisas mais específicas.

O Dr. Dráuzio Varella parece apenas mal informado e desatualizado em relação à substância, infelizmente ele vem à público divulgar informações sem fazer um estudo apropriado.

Temos aqui no site um artigo bastante interessante chamado Nicotina para se divertir onde a Dra. Caitlin Notley professora sênior da Faculdade de Medicina e Saúde de Norwich na Inglaterra mostra num estudo independente que a nicotina pode ser recreativa e não representa todo o perigo que antes podia representar quando consumida através do fumo, ela coloca como um componente social benéfico que aumenta a sociabilidade, produz grupos saudáveis (socialmente) e aumenta a interação entre pessoas com interesses parecidos.

Podemos então comparar com aquela saída para o happy hour onde se consome álcool, substância que produz muito mais mortes por ano do que o vaping jamais produziu em toda a sua história de vida.

A Altria que é a maior produtora de cigarros dos EUA comprou 1/3 da Juul (empresa americana de pods)

O Dr. Dráuzio Varella se espanta quanto à manobra da Altria, dano de marcas como Philip Morris e Marlboro, que comprou 35% das ações da Juul, empresa líder no mercado de pods nos Estados Unidos. Já cobrimos essa notícia através deste artigo e não é nenhum segredo que gigantes do tabaco estejam migrando para alternativas de risco reduzido como o tabaco aquecido e produtos de vaping, já que tanto a Philip Morris quanto a BAT já foram à público declarar que querem parar de fabricar cigarros e migrar totalmente para alternativas sem combustão.

Estas são decisões estratégicas feitas por empresas que entendem que seus produtos perdem consumidores todos os anos e precisam se reinventar para sobreviver. A argumentação do Dr. parece querer dizer que se uma indústria tabagista resolve investir no mercado de cigarros eletrônicos automaticamente isso é prova de que os cigarros eletrônicos são maus e devem ser combatidos tanto quando os cigarros convencionais, algo completamente sem o menor sentido.

O uso de cigarro eletrônico é proibido no Brasil

Informação completamente equivocada e irresponsável que pode levar as pessoas ao erro. De acordo com a RDC 46/2009 da Anvisa é proibido o comércio de cigarros eletrônicos e derivados. A posse e o uso nunca foram proibidas e você não só pode comprar um cigarro eletrônico fora do Brasil e trazê-lo sem qualquer problemas como pode usá-lo em qualquer lugar que seja permitido fumar.

As leis em relação ao uso são bastante escassas e fora algumas leis municipais e estaduais, a maior parte do Brasil não possui qualquer proibição quanto ao uso até em locais fechados onde normalmente não se pode fumar, mas não há nada que proíba o ato de vaporar. Porém sempre sugerimos discrição e respeito e que os vapers sigam as mesmas determinações impostas para fumantes.

Não há demonstração de que o cigarro eletrônico ajuda a parar de fumar

Se você para de consumir cigarros e passa a usar um cigarro eletrônico, você para de fumar. O que você não para é de CONSUMIR NICOTINA e há uma baita diferença nisso. Cigarro eletrônico é uma nomenclatura incorreta para o dispositivo pois ele não produz fumaça, não há queima de substância e não há sequer tabaco no que é consumido (apesar da nicotina vir do tabaco, ela é um subproduto e já existe nicotina 100% sintética). Se continua existindo o papel do vício, há pelo menos uma troca de um vício que mata por um vício que não mata, pois o cigarro eletrônico é comprovadamente pelo menos 95% menos prejudicial que o convencional.

Porém as pesquisas discordam do Dr. Dráuzio Varella. Publicada em 14 de Fevereiro deste ano, esta pesquisa independente publicada no New England Journal of Medicine conclui que os cigarros eletrônicos possuem quase 2 vezes mais chances de sucesso para ajudar pessoas a parar de fumar do que as terapias anti-fumo tradicionais como gomas de mascar e adesivos.

Como o vídeo foi publicado em 25 de Fevereiro, quase 10 dias após a pesquisa ser divulgada, é mais um exemplo da falta de preparação do Dr. ao abordar o assunto.

Devemos também salientar que as terapias convencionais possuem índice de sucesso de menos de 30%.

“Apenas” 10.7% da população brasileira é fumante

É possível perceber nitidamente que o Dr. quase diz que 10.7% é um número “pequeno” de fumantes, mas ele se corrige rapidamente dizendo que é um número que vem diminuindo ano a ano. A prevalência de fumantes no Brasil é relativamente pequena quando comparada à outros países, porém em um país grande como o nosso, 10.7% ainda representam mais de 18 milhões de fumantes.

É completamente irresponsável achar que “está indo tudo bem” quando ainda temos tantos fumantes que não conseguem parar de fumar e não possuem acesso a alternativas mais seguras como o cigarro eletrônico, o tabaco aquecido ou o tabaco oral, resultando em doenças, morte lenta, sofrimento e tragédia.

Adolescentes que nunca fumaram passarão a usar cigarros eletrônicos

Esta é a principal preocupação em relação aos cigarros eletrônicos e um assunto amplamente discutido e bastante polêmico. Nos EUA é dito que há uma epidemia nas escolas, mas a coisa parece ser muito menor do que se pinta.

É necessário entender que para um jovem ou até uma criança usar um cigarro eletrônico existem vários filtros que precisam ser ultrapassados: os pais precisam falhar na educação da criança, a escola precisa permitir o uso dentro de seu ambiente, o governo precisa falhar em atuar no combate ao uso dos cigarros eletrônicos por menores de idade e o vendedor precisa descumprir a lei e vender para um menor de idade.

E mesmo que tudo isso aconteça, ainda há uma enorme diferença entre provar um cigarro eletrônico e estabelecer um uso frequente e contínuo que crie um vício em nicotina, já que é necessária constante aquisição de produtos como líquidos ou cartuchos para que um jovem possa ser um efetivo “usuário”.

Infelizmente é exatamente isso que grupos anti-vaping costumam fazer, considerar jovens que apenas provaram um cigarro eletrônico, mas não fazem uso frequente, como um “jovem usuário de cigarro eletrônico”, inchando as estatísticas e manipulando a mídia.

Sabores de menta, maçã, chocolate e framboesa para viciar as criancinhas

O papel dos líquidos com sabores é fundamental para a maioria dos adultos que deixaram de fumar utilizando cigarros eletrônicos. Opções agradáveis e atrativas como morango, menta, chocolate e muitas outras tornam a experiência mais palatável e facilita a transição do cigarro para o vaping.

Isso foi alvo de campanha de vários Youtubers e personalidades do meio do vaping americano ao declarar publicamente quais foram os sabores que os ajudaram a parar de fumar. Para mim, foi o morango, sem ele eu provavelmente ainda estaria fumando 3 carteiras de cigarros todos os dias.

Logicamente que um marketing apelativo, com produtos que contenham claro objetivo de conquistar o público infantil, deve ser combatido e isso já ocorre de forma natural no mercado, com os próprios consumidores boicotando marcas que oferecem produtos desta forma.

Conclusão

Falta bastante pesquisa e preparação para o Dr. Dráuzio Varella poder falar com propriedade sobre os cigarros eletrônicos, infelizmente ele como figura pública e respeitada demonstra grande irresponsabilidade ao divulgar um vídeo com tanta desinformação.

Eu convido o Dr. para um debate acerca do vaping, caso ele queira abrir seu espaço no Youtube para uma discussão saudável e justa sobre os cigarros eletrônicos. Apesar de não ser da área médica, acredito que após quase 4 anos com o projeto Vapor Aqui, eu possa contribuir para o engrandecimento de um diálogo sério embasado em fatos.

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